sexta-feira, outubro 23

A moça disse que estava à procura dele
de um específico com páginas com marcas de dedos
orelhas de dias velados
com a mancha da lágrima
sussurros nas entrelinhas
uma nota de música
e a data de uma história.

A moça disse que se achar, quer pra ela, pra guardar consigo e levar consigo
e tomar café com ele, deitar e vê-lo ao lado e não passá-lo à frente
quer assinar, datar e dizer: é meu.

Cuidar dele e ser cuidada dele.

Ela dedilha a estante e toca numa capa que lhe chama a atenção
os olhos se encontram e ela se sente feliz
deslizou os dedos, sentiu o cheiro, tocou os lábios nele e se sentiu escolhida.

Que presentinho...

(Darla)

sexta-feira, outubro 16

Quem

Passou pela rua larga sob o sol de primavera vespertino
num céu azul quase intacto e amplo
o asfalto ardendo como que reclamando o passo.

Uma rua deserta
nada além do som do silêncio
cortinas a balançar em janelas entreabertas de mundos desconhecidos
e seus olhos curiosos se esticavam loucos pela imagem de um quadro, uma porcelana, o som de um piano...
Mas nada.

Pés duros sobre o solo cansado e o sorriso tímido sobre o rosto leve.
O coração pulando ritmado no peito, engolindo a certeza do novo.

Então deixou as mãos dançarem ao vento e a vi rodopiar tal como bailarina de caixinha de música.

No ar um cheiro de tarde de infância.

Abriu então os olhos rindo-se da travessura quase clandestina

não fosse um observador peculiar.

Ela cambaleou num misto de timidez e encantamento pela figura que a observava com olhos fixos e dedicados.

Ela sorriu
e ele voou pra mais perto.
Ela o tocou
e ele cantou.
Ela o beijou
e ele se guardou em seu ombro.

A menina e o pássaro.

(Darla)

sábado, outubro 10

Quando se quer voar


É preciso menos que asas

Um sorriso leve que lembre brisa
Uma ou duas gotinhas de chuva
Passos sem jeito pelas ruas, como que numa dança

Um até breve arrastado
[que podia durar horas]

(Darla)


sexta-feira, outubro 2

Algumas coisas moviam Alice
Sobretudo Maravilhas personificadas em sorrisos, gostos, arte, sons...
E claro, sussurros.

(Darla)

sexta-feira, setembro 25

Guia para o viajante

 
Ao tomar a estrada olhe em frente, sempre em frente.

Use óculos escuros.
Uma blusa solta pra poder sentir o vento agitando-a, pois assim sentirá efetivamente o sabor liberdade.

Mastigue chicletes, dê preferência aos que têm recheio e que manchem a boca de uma cor adorável.

Leve cd’s, vários, de todos os estilos, dos mais agitados aos mais dramalhões que vão te fazer cantar alto e chorar feito criança lembrando do cachorro da infância ou do “cachorro” da juventude.
Cante, cante alto, bem alto. Mas pra isso, escolha estradas largas e pouco movimentadas pelo bem dos ouvidos alheios.
Dê preferência por estradas alternativas, mas nada de atalhos, melhor enfrentar os desafios de frente.

Faça xixi a cada 4 horas e aproveite para esticar as pernas, ler as notícias no jornal da parada, sorrir pra moça do café e finja não ouvir a cantada sem graça do caminhoneiro, mas seja educada.

Barras de cereais, biscoitinhos, chocolatinhos, confeitos, essas porcarias são as melhores companhias numa viagem sem destino, mas, por favor, coma comida de verdade.

E tome água, muita água.

Desligue o bendito celular ou jogue-o fora.
Ligue pra quem você ama do orelhão do posto e cuidado com as pulgas na hora do sono necessário.

Sempre alerta, sempre atenta, sobretudo à estrada, ao destino, aos caminhos.

Esteja aberta a sentir os cheiros, eles dizem tanto. Sinta o cheiro do mato, da gasolina, do café, do chão, do asfalto. Sinta o cheiro que é só teu e que impreguina o carro, sinta teu hálito, engula e sorria, mas não esqueça de escovar os dentes. Pesquisas revelam que o uso de fio dental aumenta a expectativa de vida, então, é melhor não arriscar e garantir mais uns 3 aninhos nas costas que nunca é demais.

Use calçados confortáveis, mas deixe os pés respirarem. Deixe seus dedos provarem a terra molhada após a chuva de verão.

Leia sempre as placas, siga as setas e compre um chapéu.

Pare! Sim, pare quando achar que está cansada, pense, reflita, permita-se aprender com quem parece não ter nada a oferecer. Nas estradas tem gente de todo tipo, com as mais bizarras histórias. Por que não ouvir e ainda ter a chance de escrever um livro depois?

Fotos...Isso, estavam faltando as fotos. As polaroides, como dizia uma velha amiga, são as melhores, mas andam tão difíceis de serem achadas, talvez num bom antiquário...mas sem problemas, que seja uma máquina digital mas não esqueça de revelá-las para sentir as imagens presas para sempre em papel. Papéis são coisas que a gente guarda pra sempre, sobretudo folhas A4.

Dica: fotos devem ser tiradas com seus olhos em primeiro lugar, depois com a máquina, porque assim elas serão aquelas fotografias particularmente impregnadas de alma e estas são as mais belas e só elas têm o poder de emocionar e são as que seus filhos terão o prazer de ver no futuro.

Tome cafeína. Mas chá de camomila é tão bom numa noite fria de insônia.
Mas cuidado, não pegue no volante depois de um porre de camomila e outra dica: sai dessa de insônia e se ficar triste, tem direito, mas não se demore nessa, a vida é tão mais. Digo isto com a experiência de quem tem calos nas mãos.

Pra fechar, vamos rever os pontos principais:

Proteja-se
Esteja atento ao caminho
Cuide de você
Respeite os demais
Tenha olhos curiosos
Tome água e coma bem
Sorria
Descanse

e...

Aproveite a viagem!


“Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora,ir embora
Sem sair do meu lugar.”

(Darla)

domingo, setembro 20

Modinha*

 
Pousou na cabeceira pra esquecer
do verso triste que se leu
dos momentos nas ruas por onde passou.

E cortando a luz da tarde morna
encontrou descanso ao móvel mudo
e deitou seus olhos sobre os cabelos em flor.

Jaz a luz rompida sobre o chão de giz
de um quarto cheio de seus bibelôs
livros antigos e cheiro cassis.

Um lugar que outrora acolhia gente
quase que podia senti-lo quente
mas agora era só
vazio e dor.

E o silêncio de terça ensolarada
abraçou paredes
abafando
uma respiração quase cantada

da boneca de rosto porcelana
deitada sobre folhas avulsas
rabiscadas de joaninhas e amor.

Foi tudo o que viu
tudo o que pode ver
tudo o que quis se ver
naquela tarde
que de tão comprida
era mais que meses.

Tão vasto era o mistério ali
tão limitada a compreensão
que ignorou-se o pedido rouco
de uma voz serena
em meio a papel.

[suspiro de indignação]

E assim
pousou e se foi
sem perceber o coração batendo
no peito aberto de uma boneca
que agora lamenta sobre os versos soltos
de joaninhas que não se trazem sorte
e criados –mudos que nunca falarão.

Na
Naranara
Naranarara
...

(Darla)


[*escrito ao som (melodia) de ‘versinho número um’ da Mallu]


terça-feira, setembro 15

Viver nesse mundo é bobagem

 
Sob os olhares de um vasto teatro vi uma pequena flor se plantar
Veio do seu jeito mais limpo, mais ela e mais encantador quanto o esperado
E um sorriso quase esquecido ganhou todo meu rosto

O versinho de número um...
Girassóis que tomaram as poltronas...
E aquela voz seda, voz menina, voz só dela tomou todo meu peito e me tomou

Angelina...angelinaaaa...

Linda Malu

“Tchau”
:D

"Fiz esse versinho
Pra dizer
Por mais que vasta
A rima for
Não cabe ao verso o meu amor
Diz nesse versinho
Que o viver
Por mim
Não importa o como for
Já que será o nosso amor
Me ajuda a fugir
Me tira daqui
Viver nesse mundo é bobagem"

(Darla)

sexta-feira, setembro 11

Salve Gonzaguinha nesta noite triste


“E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão

E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é?
O que é?
Meu irmão...

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...

Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...

Você diz que é luxo e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será

É bonita ...”

terça-feira, setembro 8

Lucíola

 
"Já que você não está aqui,

O que posso fazer é cuidar de mim

Quero ser feliz ao menos

Lembra que o plano era ficarmos bem?"

quarta-feira, setembro 2

Vende-se um coração



Vende-se um coração

Quase novo
(eu juro)
ainda bem vermelho, regado de sangue moço e de vontade por sentir.

Sofre de algumas arritmias diante de cheiros e memórias que trazem lembranças, mas se vendido, vai sem elas, eu prometo.

O comprador não vai se arrepender.

Cicatrizes? Sim, ele tem, mas eu cuidei que elas fossem formadas vagarosamente, então, tem seu certo charme.
Ops...uma ferida...uhmmm...ainda sangra...mas sei que um dono zeloso vai saber cuidar dela.

Garanto que é um dos maiores do mercado
Cabe quase o mundo inteiro e olha que a dona nem é mãe.

Amplo, espaçoso, confortável, cheio das vantagens desejadas por muitos, mas os condôminos até então não souberam valorizar
Os últimos locatários, por exemplo, nem sequer o pintaram antes de partir, simplesmente se foram, deixando a porta aberta, vidros quebrados, um sofá velho...mas eu tô cuidando de entregar ao dono definitivo um lugar legalzinho como era quando o recebi.

Enfim, quero vendê-lo. Preciso me desapegar. Cuidar disso tudo sozinha tem me dado um cansaaaço... E às vezes quero viajar e tenho receio de deixá-lo assim, sem mim.

Então, melhor vendê-lo a quem vai enchê-lo de crianças e sorrisos, e cheiro de café às 5 da tarde e flores e passos ...

Vende-se um coração
Quase novo

(Darla)

quarta-feira, agosto 26

Quando não se esquece

 
Como fio de luz ela vem
aproveita as mais estreitas frestas da alma para entrar
vem como navalha cortanto
sangrando de sal os olhos
desenhando a tristeza por onde passa

é como ser criança e passar em frente à vitrine da doceria e desejar a torta com cobertura de chocolate e morango em cima e não poder tê-la
você sente o gosto na boca, a salivação aumenta, as pupilas dilatam, o coração dispara, mas a torta pertence à doceria e você à rua que precisa ser seguida.

ela vem no momento inoportuno e tira a fome, o gosto e faz queimar o estômago.

ela vem devastando e desestabilizando.

a lembrança

(Darla)

sexta-feira, agosto 14

A que passava

“Uma caipiríssima, pouco gelo e muita vodka, por favor!”

É madrugada e ela tá lá naquele bar vazio, olhando pra cara do garçom quase íntimo. O jazz do músico fracassado ao fundo e o olhar do estranho fuzilando-a.

“Qual é? Olhando o quê? Perdeu alguma coisa aqui?”

Não estava sob efeito do álcool, era fraca, uma única dose e só queria cama [pra dormir], ela tava é puta mesmo, não tava, ela era puta, não vadia que sai dando por dinheiro, puta de revoltada, irritada...cheia.
O estranho, com um meio sorriso, sentou-se no balcão, no banco ao lado, e a olhou nos olhos.

“Ei menina, qual é o nome da revolta? Cospe ela aqui.”

Ela lançou um olhar de desprezo e riu-se.
10 min depois já eram íntimos. Nada de pegação, mas de conversa. Ambos estavam carentes de uma boa conversa e despretensiosamente ela fluiu.
Falou-se da infância até à puberdade, da escola de música deixada de freqüentar na adolescência, até os detalhes das escadarias do lugar viajado no ano passado.
Ela falou que queria ser burra, analisar menos e deixar de querer ter respostas pra tudo.

“Putz, deve ter sido aquela professora de português, foi ela a culpada.”
“Oras, ninguém é culpado...”
“Droga!”


[pensamentos]

“Essa casca vitoriana, que vontade de me despir. Quero vestido listrado, all star, lápis nos olhos. Quero blusas de todas as cores, xadrez, flores, chita...e pronto. E quero dizer foda-se, porra,...essas coisas, sem pudor. Porque todo mundo pensa isso e fala isso, mas eu cismei que não podia.”

O cara riu-se.

Mais uma dose, mais uma gargalhada, uma cumplicidade de olhar e ele disse adeus.

Ela disse até logo pois odiava perdas.

Mais uma noite e mais uma vez ela simplesmente ‘passava’.

(Darla)

domingo, agosto 9

smile

“Menininha sai do portão
Vem também brincar
Vem pra roda
Me dê a mão
Traz o seu olhar”

O dia eu não lembro, o estado de espírito tão pouco, mas sei que andava sem rumo pelos caminhos virtuais, entre pessoas [reais ou não] e suas fotos [porque vejo alma nelas]. e garimpando descrições e grupos de idéias convergentes, me vi abrindo uma caixinha cheia de diários virtuais [gritos], de todos os tipos. resolvi parar e tentar tomar ar em alguma casa de portas abertas e palavras amigas, mas não imaginava encontrá-la, não poderia supor a grande descoberta do dia. não sei o que me atraiu. talvez aquela palavra que imediatamente quis saber o significado: pareidolia [sobre como ver diferente tudo aquilo que se vê]. sorri. [ahhhhh, o meu filme preferido]. talvez foi aquele olhar que me atraiu. não pela notável beleza, mas pela eloqüência com que me chamava: venha! fui até lá. adentrei aquele mundo encantado do ‘sobre’. sobre como ser impactada, sobre como encontrar algo que realmente te mova... fiquei tão embriagada que li uma, duas... milhares de vezes e a cada leitura via algo novo, me via, via outra de mim...enfim...tinha os meus olhos brilhando de fascínio. vinda de Plutão, trouxe mais cor a minha vida. e ela expôs meu grito quando eu mesma não conseguia falar e me fez leve. e me presenteou com os textos mais lindos, verdadeiros e que cabiam direitinho nos vazios que meu coração desejava preencher. ainda adoro desvendar novas vidas, ainda adoro fotos e novas palavras e tecê-las também, mas essa ‘passarinha’ .... me deu novos olhos.

[sorriso]

[obrigada Fayzinha, não podia deixar de falar.]

(Darla)

terça-feira, julho 21

Minha poesia marginal*


















Meus olhos andam cheios de desejos e nas mãos tenho a tarefa somada ao anseio de fazer cumprir.
Nos meus ouvidos um sussurro inimigo.
Povoando os esconderijos da mente, o jogo de palavras e trapaceios.
Andando sobre a corda bamba da vida, equilibro-me sobre mim mesma.
Não pensava ser difícil viver,
Não pensava ser difícil vencer,
E me pergunto tantos porquês...

E uma ou outra vez consigo respirar quando emito o FODA-SE:
FODA-SE
FO - DA - SE

As pastilhas de hortelã estão sobre a mesa e o livro de cabeceira pode ser qualquer coisa revolucionária - símbolo de gritos surdos de quem só quer se libertar.
A música pode ser um pop rock, um rock pauleira, um folk cretino, um chorinho safado...desde que me faça sentir as ligaduras se rompendo e o êxtase explodindo.
As linhas do tornozelo e o lápis sobre os olhos são só uma maneira de dizer:
Qual é? Eu só quero ser um pouco dessa louca que mora em mim.

Mas as pregas da costura inglesa e as plumas da educação vitoriana ainda teimam em prender meus pés e enjaular-me nos calabouços reais.

“E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!”
Vou-me embora pra Pasárgada? Pra quê? Se Pasárgada é aqui, se Pasárgada sempre esteve aqui bem embaixo dos meus olhos e eu teimando em procurá-la no além mar.
Porra, aqui sou amiga do rei.

Então me diz, o que fui eu fazer lá na esquina esperando aquele ônibus que nunca passou e nem ia passar?

Fiz uns rabiscos na parede ensaiando uma rota de fuga, mas mesmo com o pé na estrada, essa minha sombra teima em me seguir. Então pensei em fazer um jogo sujo, tipo: embebedá-la e depois afogá-la no vaso sanitário. Drogá-la. Fingir-me amiga e enganá-la. Mas essa cretina é tão esperta quanto eu e se eu não me tocar sou eu que acabo comendo merda na tigela de qualquer bar safado por aí.

Mas dá pra entender tanta revolta? Pode ser sincero, você e seu puritanismo e seu ar politicamente correto. Ao invés de ficar aí com essa boca aberta, aterrorizado pelo meu português errado e chulo, por que não tenta pelo menos ser compreensivo e me diz que pelo menos me entende?

Tô puta porque meu inglês mal me leva na esquina e minha arte não me dá nem o pão amanhecido. Tô puta porque meu tesão não enche nem um copo de cachaça e sou fraca demais pra tomar algo forte o bastante pra poder me livrar dos meus monstros.
Tenho um bando de cds me olhando e que nunca tive saco de ouvir e livros então, são enfeites de estante. Tenho um monte de números na cabeça, mas nenhum que me faça ganhar na mega sena, e ser uma puta vadia agora nem me parece que seria tão ruim porque ser boazinha enche a porra do saco e me cria rugas que me farão gastar o dinheiro que não tenho para comprar os cremes milagrosos da revista de cosméticos que prometem me dar aqueles 20 anos perdidos em sonhos idiotas.

(Darla)

[*porque todo mundo tem o direito ao foda-se]

domingo, junho 28

Para ler de manhã e à noite

 
"Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma gota de chuva."


sexta-feira, junho 19

do latim, Luz











Lucíola era daquelas moças que pertencia aos seus olhos.
Queriam-na pintada, e lá estava ela, com todas nas nuances de cores e detalhes.
Queriam-na sorrindo, e ela tratava de colocar logo um belo e satisfeito sorriso no rosto.
Queriam-na ajeitando as coisas, opinando sobre economia, astronomia, música ou arte, e ela tratava de cobrir-se do seu porte mais intelectual.
Queriam-na indefesa e sensível. Intocável e sublime. Disponível e sempre alerta. E ela não decepcionava.

Mas Lucíola revelava paixões por pequenas coisas: borboletas, olhos sérios e misteriosos, conversas rasteiras e sussurradas, movimentos de mãos, andares, cheiros. Andava nas ruas, e não estava lá, sempre no refúgio gratuito dos amigos pasargadenses e das confidências com a amiga alada. Mas sua paixão por pequenas coisas não a deixava descansar naquele seu mundo particular, era como se algo surpreendentemente necessário lhe faltasse.
E nada foi capaz de sossegá-la e toda literatura não foi capaz de lhe trazer as respostas.

Mas um dia, como qualquer outro, à janela, foi golpeada e arrebatada pela resposta mais eloqüente que poderia desejar ter.
A resposta era Luz.
E se fez só Luz...e borboleta, é claro.

E se sente dona das ruas por onde passa.


(Darla)
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