sexta-feira, agosto 14

A que passava

“Uma caipiríssima, pouco gelo e muita vodka, por favor!”

É madrugada e ela tá lá naquele bar vazio, olhando pra cara do garçom quase íntimo. O jazz do músico fracassado ao fundo e o olhar do estranho fuzilando-a.

“Qual é? Olhando o quê? Perdeu alguma coisa aqui?”

Não estava sob efeito do álcool, era fraca, uma única dose e só queria cama [pra dormir], ela tava é puta mesmo, não tava, ela era puta, não vadia que sai dando por dinheiro, puta de revoltada, irritada...cheia.
O estranho, com um meio sorriso, sentou-se no balcão, no banco ao lado, e a olhou nos olhos.

“Ei menina, qual é o nome da revolta? Cospe ela aqui.”

Ela lançou um olhar de desprezo e riu-se.
10 min depois já eram íntimos. Nada de pegação, mas de conversa. Ambos estavam carentes de uma boa conversa e despretensiosamente ela fluiu.
Falou-se da infância até à puberdade, da escola de música deixada de freqüentar na adolescência, até os detalhes das escadarias do lugar viajado no ano passado.
Ela falou que queria ser burra, analisar menos e deixar de querer ter respostas pra tudo.

“Putz, deve ter sido aquela professora de português, foi ela a culpada.”
“Oras, ninguém é culpado...”
“Droga!”


[pensamentos]

“Essa casca vitoriana, que vontade de me despir. Quero vestido listrado, all star, lápis nos olhos. Quero blusas de todas as cores, xadrez, flores, chita...e pronto. E quero dizer foda-se, porra,...essas coisas, sem pudor. Porque todo mundo pensa isso e fala isso, mas eu cismei que não podia.”

O cara riu-se.

Mais uma dose, mais uma gargalhada, uma cumplicidade de olhar e ele disse adeus.

Ela disse até logo pois odiava perdas.

Mais uma noite e mais uma vez ela simplesmente ‘passava’.

(Darla)

domingo, agosto 9

smile

“Menininha sai do portão
Vem também brincar
Vem pra roda
Me dê a mão
Traz o seu olhar”

O dia eu não lembro, o estado de espírito tão pouco, mas sei que andava sem rumo pelos caminhos virtuais, entre pessoas [reais ou não] e suas fotos [porque vejo alma nelas]. e garimpando descrições e grupos de idéias convergentes, me vi abrindo uma caixinha cheia de diários virtuais [gritos], de todos os tipos. resolvi parar e tentar tomar ar em alguma casa de portas abertas e palavras amigas, mas não imaginava encontrá-la, não poderia supor a grande descoberta do dia. não sei o que me atraiu. talvez aquela palavra que imediatamente quis saber o significado: pareidolia [sobre como ver diferente tudo aquilo que se vê]. sorri. [ahhhhh, o meu filme preferido]. talvez foi aquele olhar que me atraiu. não pela notável beleza, mas pela eloqüência com que me chamava: venha! fui até lá. adentrei aquele mundo encantado do ‘sobre’. sobre como ser impactada, sobre como encontrar algo que realmente te mova... fiquei tão embriagada que li uma, duas... milhares de vezes e a cada leitura via algo novo, me via, via outra de mim...enfim...tinha os meus olhos brilhando de fascínio. vinda de Plutão, trouxe mais cor a minha vida. e ela expôs meu grito quando eu mesma não conseguia falar e me fez leve. e me presenteou com os textos mais lindos, verdadeiros e que cabiam direitinho nos vazios que meu coração desejava preencher. ainda adoro desvendar novas vidas, ainda adoro fotos e novas palavras e tecê-las também, mas essa ‘passarinha’ .... me deu novos olhos.

[sorriso]

[obrigada Fayzinha, não podia deixar de falar.]

(Darla)

terça-feira, julho 21

Minha poesia marginal*


















Meus olhos andam cheios de desejos e nas mãos tenho a tarefa somada ao anseio de fazer cumprir.
Nos meus ouvidos um sussurro inimigo.
Povoando os esconderijos da mente, o jogo de palavras e trapaceios.
Andando sobre a corda bamba da vida, equilibro-me sobre mim mesma.
Não pensava ser difícil viver,
Não pensava ser difícil vencer,
E me pergunto tantos porquês...

E uma ou outra vez consigo respirar quando emito o FODA-SE:
FODA-SE
FO - DA - SE

As pastilhas de hortelã estão sobre a mesa e o livro de cabeceira pode ser qualquer coisa revolucionária - símbolo de gritos surdos de quem só quer se libertar.
A música pode ser um pop rock, um rock pauleira, um folk cretino, um chorinho safado...desde que me faça sentir as ligaduras se rompendo e o êxtase explodindo.
As linhas do tornozelo e o lápis sobre os olhos são só uma maneira de dizer:
Qual é? Eu só quero ser um pouco dessa louca que mora em mim.

Mas as pregas da costura inglesa e as plumas da educação vitoriana ainda teimam em prender meus pés e enjaular-me nos calabouços reais.

“E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!”
Vou-me embora pra Pasárgada? Pra quê? Se Pasárgada é aqui, se Pasárgada sempre esteve aqui bem embaixo dos meus olhos e eu teimando em procurá-la no além mar.
Porra, aqui sou amiga do rei.

Então me diz, o que fui eu fazer lá na esquina esperando aquele ônibus que nunca passou e nem ia passar?

Fiz uns rabiscos na parede ensaiando uma rota de fuga, mas mesmo com o pé na estrada, essa minha sombra teima em me seguir. Então pensei em fazer um jogo sujo, tipo: embebedá-la e depois afogá-la no vaso sanitário. Drogá-la. Fingir-me amiga e enganá-la. Mas essa cretina é tão esperta quanto eu e se eu não me tocar sou eu que acabo comendo merda na tigela de qualquer bar safado por aí.

Mas dá pra entender tanta revolta? Pode ser sincero, você e seu puritanismo e seu ar politicamente correto. Ao invés de ficar aí com essa boca aberta, aterrorizado pelo meu português errado e chulo, por que não tenta pelo menos ser compreensivo e me diz que pelo menos me entende?

Tô puta porque meu inglês mal me leva na esquina e minha arte não me dá nem o pão amanhecido. Tô puta porque meu tesão não enche nem um copo de cachaça e sou fraca demais pra tomar algo forte o bastante pra poder me livrar dos meus monstros.
Tenho um bando de cds me olhando e que nunca tive saco de ouvir e livros então, são enfeites de estante. Tenho um monte de números na cabeça, mas nenhum que me faça ganhar na mega sena, e ser uma puta vadia agora nem me parece que seria tão ruim porque ser boazinha enche a porra do saco e me cria rugas que me farão gastar o dinheiro que não tenho para comprar os cremes milagrosos da revista de cosméticos que prometem me dar aqueles 20 anos perdidos em sonhos idiotas.

(Darla)

[*porque todo mundo tem o direito ao foda-se]

domingo, junho 28

Para ler de manhã e à noite

 
"Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma gota de chuva."


sexta-feira, junho 19

do latim, Luz











Lucíola era daquelas moças que pertencia aos seus olhos.
Queriam-na pintada, e lá estava ela, com todas nas nuances de cores e detalhes.
Queriam-na sorrindo, e ela tratava de colocar logo um belo e satisfeito sorriso no rosto.
Queriam-na ajeitando as coisas, opinando sobre economia, astronomia, música ou arte, e ela tratava de cobrir-se do seu porte mais intelectual.
Queriam-na indefesa e sensível. Intocável e sublime. Disponível e sempre alerta. E ela não decepcionava.

Mas Lucíola revelava paixões por pequenas coisas: borboletas, olhos sérios e misteriosos, conversas rasteiras e sussurradas, movimentos de mãos, andares, cheiros. Andava nas ruas, e não estava lá, sempre no refúgio gratuito dos amigos pasargadenses e das confidências com a amiga alada. Mas sua paixão por pequenas coisas não a deixava descansar naquele seu mundo particular, era como se algo surpreendentemente necessário lhe faltasse.
E nada foi capaz de sossegá-la e toda literatura não foi capaz de lhe trazer as respostas.

Mas um dia, como qualquer outro, à janela, foi golpeada e arrebatada pela resposta mais eloqüente que poderia desejar ter.
A resposta era Luz.
E se fez só Luz...e borboleta, é claro.

E se sente dona das ruas por onde passa.


(Darla)

quinta-feira, junho 11


Uma necessidade pelo novo, uma sede incontrolável que acelera os batimentos no peito e faz excitado todo o corpo, pupilas dilatadas, mãos trêmulas, suor e salivação.
Uma vontade de inovar no meu estado literário, quebrar os grilhões do estilo e marginalmente explorar o desejo íntimo e expô-lo nos muros, nas praças. Gritar essa fome de arte, de arte crua e de arte temperada, de arte que é capaz de arrebatar o mais incrédulo vivente dessa terra de maldizeres e de ostracismos.
E me rasgar, beber do vinho da arte, ser tomada pela música e ter poemas só pra mim. E esse desejo que agora me dói o peito é um anseio que arde e me toma, que chega a faltar-me o ar para sobreviver.

(Darla)

segunda-feira, junho 8

late?

 
Um campo de tulipas amarelas, banhadas pelo céu azul piscina, aquela brisa amena, meio quente de tardes de primavera e cheiro de infância. Fugi pra lá nesta manhã, quando em meio às construções da cidade, buzinas, ruídos, correria...quando, no meio disso tudo, fechei os olhos, abandonei o corpo na shavásana e me vi menina correndo no campo, próxima à arvore preferida, engolindo o prazer daquela imagem. E senti aquela praia, aquela pra onde meu pensamento voa sempre que quero ver algo belo. Vi o mar, senti o calor do sol quando levantei os braços e o saudei. Foi bonito, foi gostoso e confesso que passaria o dia todo lá. Mas o bater do relógio da grande torre ao lado me trouxe de volta...
”I’m late...”: disse o coelhinho para ‘Alice’ no país das tulipas.

(Darla)

quinta-feira, maio 28


"Eu me sentiria feliz se,
pelo menos uma vez,
eu estivesse quieto no meu canto, parado,
e você me procurasse,
sem que eu tivesse que mover um dedo,
nem sequer esboçar um sorriso.

Eu me sentiria muito feliz se,
ao cair da tarde, encontrasse seu coração
entrando em meu silêncio,
devassando minha solidão,
desprezando minha timidez,
sem sequer mudar nada em mim.

Eu me sentiria irremediavelmente feliz,
se eu tivesse me dado conta
de pelo menos uma,
das tantas vezes em que isso aconteceu,
não só com você,
mas com tanta gente que eu quis."

quarta-feira, maio 27

Seduzida por Ele* e seu amante


No teto, sobre minha cabeça, círculos redondos de luzes, na cor lilás com gotas verdes, giravam, tão lindos, tão atraentes. Um convite à imaginação.
À minha frente, Ele tocando com paixão seu instrumento, que batizei de seu amante.
Perdida nos círculos, com o olhar vago e delirante, senti que por hoje não precisaria fugir pra Pasárgada, pois Pasárgada era ali.
O chorinho pícaro e cheio de sacanagem, como ele mesmo o apadrinhou, com aqueles tons que faziam vibrar cada centímetro do que posso chamar de eu e o céu se abrindo de dentro das bolas roxas e eu ria e ria e ria...
Sob a penumbra do imenso teatro, todos os olhares voltados ao artista, uma única e solteira lágrima saiu dançando pelo rosto, circundando cada poro, desenhando um traço contínuo e linear. E ela desceu e desceu e contornou a curva do queixo e pescoço até encontrar abrigo no colo quente e se perder dentro da blusa, era minha novamente.
Era a lágrima de emoção mais perfeita que havia visto, o que fez eu me sentir artista também por hoje.
Um som especial ganhou a noite fria de fim de maio.
Eu ali, no meio de tanta gente, ironicamente, me senti tão eu, enfim, me senti viva.

(Darla)


[*Obrigada Yamandú Costa]

segunda-feira, maio 25

2ª lei da termodinâmica

 
Ele passou do seu lado.

Corrompendo suas fronteiras territoriais,
desrespeitando o seu espaço, tocando nos seus muros, invadindo seu mundo.
Aumentou sua entropia, alterou o compasso do seu relógio e modificou a órbita dos seus planetas.

Com o ombro guardado à soleira, ainda com as estruturas abaladas, trépida, procurou o reequilíbrio no suspiro pausado e no olhar fingido: impessoal e inexpressivo.

Continuou observando o movimento do lugar,
a vida acontecendo no seu cotidiano peculiar,
ainda travando a batalha inevitavelmente perdida.

[Ele? Sem adeus seguiu, deixando um rastro no vazio]

Engolindo seco, o olhar pesado...
E a porta a segurá-la agora pelos quadris.

Ahhhhhhhhhh...
[Um grito vivo partiu do ventre]

E ela só desejou poder viver.

(Darla)

sexta-feira, maio 22

Minha primeira paixão


*Manuel Bandeira*
Foi nos seus braços que me perdi e me encontrei pela primeira vez
nos seus versos,
na sua fuga,
e na sua melancolia ...
Em 'Pasárgada' me refugio pelo menos uma vez ao dia
E com 'Lua Nova' aprendo a superar as intempéries...
Mas hoje, lendo meu Bandeira, e me deliciando nele...deparei-me com "Confissão" e não pude resistir
E também não posso negar que me senti confissão:

"Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim...tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo. "

domingo, maio 17

. . .



Eu estarei assim, aqui
Na eterna e já costumeira sensação da falta do algo
Estarei ali, no local acertado, sob a luz perfeitamente riscada pelo pintor
As rendas sobre o colo
Flores e seus cheiros misturados aos cabelos
E o olhar tristonho e longe [como deve ser]
E nos lábios a sede
[nítida]
Dedilhando a mim mesma
Contando as marcas da vida
Os pés cansados e lançados sobre o mato, ah...o mato cheio daquela umidade quente do solo que me grita: plante-se a mim.
Eu continuarei aqui
Como tela
A pintura
Como exige a arte [a minha]
Enfeitando as paredes e janelas dos outros mundos
Das outras vidas
Dos que respiram.

(Darla)

sexta-feira, maio 15

Dias comuns sabem ser especiais

 
Perdi-me naquela capa inusitada feita de palavras tão cheias dos outros.
Lancei o olhar no sorriso profundo do livreiro despretensioso que me fez ir a Portugal numa meia conversa vespertina de uma sexta-feira de tempo cinzento, regida pela orquestra dos motores que tomavam as ruas. Ele dissertou sobre. Eu ouvi.
Risquei o centro da cidade acompanhada da alma irmã, uma caixa com rubis nas mãos, o sorriso juvenil de quem ainda sente ferver a adolescência, as histórias fantasiadas agora misturadas às reais e as gargalhadas que às vezes vêm da boca do estômago.
O vendedor de caixas e sua explanação sobre a seriedade da moça quase oriental.
O vendedor de borboletas que cultiva suas próprias lagartas, ali mesmo, na vasta praça, sobre o caule da velha árvore que observa o meu cotidiano. Detalhe, elas não o queimam.
Sei onde está cada coisa, cada detalhe, desde o cheiro que gosto ao sorvete de casquinha, o guarda, as crianças, a gente toda e sua correria.
A cidade e suas luzes e barulhos e particularidades guarda o tesouro de cada um que eu nunca poderei sequer conhecer na totalidade.
Resta-me o melhor, continuar dividindo a conversa arrastada e louca com a que até em seriados me é companheira, pensando no moço desejado e vivendo a simplicidade do dia comum.


(Darla)

domingo, maio 3

Não é um pedido, é uma ordem

 
Desejo ser incomodada...
nos meus pensamentos, no meu descanso, no meu sossego.

Ser furtada da inércia, do coração compassado e da previsibilidade de cada ato e de cada plano.

Insatisfação, inconformismo...

Inconseqüência
Incoerência
Inexatidão...

Prefixos a- e in-, todos!

Domingo, mais um dia 03 de qualquer ano e só desejo ser menos eu e mais um mundo.

(Darla)

quinta-feira, abril 30

A palavra é: Cais

 
Passado um tempo de andanças sem destino,
veio subitamente a vontade de retornar à gare companheira,
o desejo emergente de se prender ao Cais.

Havia tocado ondas, visto os céus estrelados dos sete mares, provado o sal nos lábios, o brilho eterno das festas distantes e a oculta alma vazia que lhe parecia encher.
Atracara vez ou outra em países estrangeiros e deixara-se embriagar por vinhos viajantes, marginais ou infantis, que sabiam distrair, mas que não tinham onde prender a corda, deixar os ombros da nau se estirarem e descansarem como quando em casa.

Mas ele sabia o que queria, e era,
Cais.
Pra onde sempre voltaria,
Cais.

Que descia os olhos sobre ele dia e noite e que dividia o exato instante sublime do poente,
onde lançaria sua corda, desembarcaria seu quinhão mais valioso e suspiraria aliviado por ter e saber ter,
o Cais.

Cruzado o horizonte da proximidade, podia ver o sorriso aberto do que lhe aguardaria sempre e desde longe veio bailando sobre a água e criando ondas que beijavam o amado antes mesmo da sua chegada.

Logo atracaria
E se deixaria ser...
do Cais.

(Darla)

domingo, abril 19

Amor é síntese*

 
"Por favor não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise profunda
Quanto mais eu
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeito amor."

(Mário Quintana)


(*)Obrigada caro Quintana por, de certa forma, me rabiscar aqui.

quarta-feira, abril 15

5 folhas A4

 
Debruçou-se à janela,

O olhar perdido dançando entre os passantes e o céu azul embriagado do doce cheiro de sábado.

Um suspiro e outro, a mente tentando distinguir tantos rostos novos e a ansiedade sendo engolida compassadamente junto à saliva.

Um som vizinho a desperta: [folhas]

Volta seu olhar à janela companheira e avista ali o moço a lamentar-se pelas folhas que lhe faltam no jardim.


Ela estende a mão e toma as únicas 5 folhas que lhe traziam sombra e as entrega.

Ele se olha, olha para ela, para as folhas, para seu jardim sem folhas e as aceita prometendo plantar outras novas.

Mas isto já não a importava, estava satisfeita pela quase sensação de plantar no quintal vizinho, sentiu assim que ele seria seu também.

E desde então nunca mais se sentiu sozinha à janela, nem ali, nem quando estava à porta, ou a dormir, ou a passear...
O sol passou a iluminar sua face antes coberta e ambos jardins floriam bem mais.

(Darla)

quinta-feira, abril 9

Método das fatias ou dos blocos [teoria da conformação emocional]

 
Divida-se, totalmente, em partes infinitesimais e distribua-se.
Lembre-se que, por maior que seja o esforço, por mais que você se doe,
a deformação nunca será de toda permanente, parte sempre retorna ao estado inicial, parte sua é sempre essência.
E diviidindo-se, lembre-se de se integrar.
Some-se ao outro, misture-se, faça o balanço de forças e descanse.
Pressões são comuns, estarão por toda parte em intensidades maiores ou menores, mas foque no resultado, ele é sempre desejável.
Ao final, terá forma, terá utilidade e será alguém para outro alguém.

(Darla)

terça-feira, abril 7

sábado, abril 4

A sombra que me cortou


[Tirinha Ricardo Liniers]

Chega de sinceridade!
[um grito surdo lhe rasgou a garganta]

Com os pulsos cerrados,
O pequeno ponto de luz
cortava as sombras dos passantes nas ruas.

Pés duros plantados no chão ofegante,
Pensamentos cravados nas indagações da mocidade
E peito cheio de gritos surdos tão eloqüentes que faziam vibrar os cristais.

[Assim a vi e assim a pinto...e quis compartilhar]

(Darla)

domingo, março 29

Meu


És meu, meu menino marginal.
E por que meu?
Meu, porque foi costurado por dentro.
Porque o vejo como a roupa que me cai bem,
como uma vaga imagem de mim que nunca foi minha, sempre perdida.

E loucamente sinto saudade.
E bem mais loucamente, desejo manter-me perto, bem mais perto que a respiração,
não para carícias, mas para me sentir mais inteira.

E, não precisaria sequer uma palavra, nenhuma conversa sobre os mistérios da vida, sobre as caixas de pandora e essências...
Só ficar ali, por perto, olhando o mesmo ponto, rindo da mesma besteira,
eu sendo eu, você sendo você e aquela parte de mim, ela sim, recostaria e poderia repousar pois saberia que sua missão estava cumprida.

És meu, meu garoto marginal.
‘E a noite é um berço pra quem quer sonhar’.

(Darla)

sexta-feira, março 27

"loucamente", eu li

 
Cerra entre as mãos o rosto companheiro
Sem medo do que verá bem perto dos olhos, além dos limites do corpo e da proximidade cristã.
Toca os traços marcados dos dias partidos e não se vá.

Cerra entre os dedos a pele quase intocada até sentir os poros diluídos às linhas da palma e os cabelos como cordas a enlaçarem os ombros, os braços.

Sinta com ardor
De forma que a estrutura corpórea se dissolva aquele corpo,
aquele rosto,
àquela respiração desritmada.

Toma entre as mãos como quem toma o alimento, o objeto preferido, a lembrança

E plante a pergunta: _ Como tiro você de mim?

(Darla)

domingo, março 22

Conjugando o verbo 'Claricear'

Falta-me prazer nas coisas e sobra-me esse desejo dele ...

Os olhos Dela assim tão sérios e até gélidos
[Nunca imaginaria ter tanta vida ali, sob eles, e menos ainda, ter tanto de mim, tanto desse algo como eu mesma, que nem me sei o nome]

Fui entrecortada por aquelas linhas, dilacerada pelas palavras que Ela cozera.
Entrecortada sim, como a luz que invade qualquer janela e lugar que deseja dominar.

Fui rasgada como véu, exposta a mim mesma numa nudez constrangedora,
e boquiaberta, pasma, faltou-me a reação, que me costuma ser natural.
Sobraram-me sim, desajeitos,
faltaram-me as respostas prontas, das quais lanço mão como que abrindo um almanaque de frases feitas para coisas que não as devem e nem podem ter.

Gélida como aquele olhar,
imóvel como o criado mudo que observa a intimidade do casal sem nunca os apontar,
ali, largada,
entre as páginas fiquei,
e o fôlego preso...

Que só agora percebo.

(Darla)

quinta-feira, março 19

Um suco de nuvem, por favor


Queria tomar suco de nuvem
e pílulas de leveza todos os dias, em jejum.

E ouvindo o ‘último romance’
deixar os ombros se moverem como em ondas,
os olhos se apertarem, repetindo o refrão.

E nessa hora, um vento novo iria ganhar todo o apartamento
e fazer ali o filhote de furacão que sempre quis ser,
o futuro de toda delicadeza que se preze [como disse Clarice].

Talvez mexer três folhinhas bem de leve ou arrancar três sorrisos bem disfarçados seja o bom começo para o meu futuro de furacão.

Acho que queria tomar mesmo era um porre de nuvem
e tarja preta de leveza em pílulas [bem pequenininhas].

E que de tão brisa, de tão acima, de tão flutuante que eu seja...
Possa ser só alma vagando atrás do último olhar.

(Darla)

domingo, março 15

Um bom amante


Corpo estirado sobre a cama
Próximas aos olhos, as letras em caixa alta:
FELICIDADE CLANDESTINA
Era ele, o “amante” do dia.

Um cheiro de sabão em pó das colchas recém lavadas
Algum sol cortando as persianas,
mas ainda uma meia luz...
E ela abria e fechava os olhos e o via, ali, sob seus olhos, apaixonado e amado.
E ela riu-se, riu-se embriagada e respirou com o rosto sufocado pelo travesseiro.

Como é simples ser feliz em pequenos e sorrateiros momentos do dia,
como naquele, pós almoço: hora do melhor dos sonos, das preguiças e dos pensamentos altos e longes...

Engoliu-se suspirando,
Sorriu,
Espreguiçou-se...

E tocando-o, enfim adormeceu...


(Darla)

segunda-feira, março 9



Uma caixinha

Que guarda laços e fitas do que ela era enquanto menina
Sorrisos e olhares eternizados que colheu nos caminhos da vida e que sempre vêm a ela antes de pegar no sono, sempre naquele exato instante do cerrar dos cílios
Fotos dos que queria guardar em potes com ela, mas que não pôde

Sonhos, alguns esquecidos, outros adormecidos e alguns persistentes que esperam ansiosos a hora de ganharem vida

Certas músicas ou apenas sons que a tocam

Cheiros...sim...cheiros...café, doces, ele...

Muitas saudades
Infinitas perguntas sem respostas
Cansaço (sempre)

Uma caixinha...
Que se pinta, se transforma...mas que lá dentro guarda sempre as mesmas coisas...

(Darla)

sábado, março 7

Ausência


Fez-se casca e perguntou-se:
Existe?

Ouviu respostas que precisava,
contou as horas corridas
e se recolheu.

Até que viu aqueles olhos cheios de lágrimas de dor
e se viu neles
como não imaginava mais poder ver
e percebeu que tudo poderia ser muito mais difícil do que lhe parecia até então.

E chorou
E sorriu o desespero
Adormeceu no sofá
E quis dizer que sim
e que sim
e que sim
...

Despertando, achou que melhor agora seria fugir...

Até que a ausência anunciada lhe gritou aos ouvidos
e não havia mais o que dizer, o que procurar, esperar ou desejar.
Ela se fazia presente há muito.

Era melhor acolhê-la
e assim se fez.

(Darla)

domingo, março 1

Inteiro:

Do lat. Integru

Adj.,
Completo;
Que tem todas as suas partes;
Que não sofreu diminuição;
que está no gozo de todas as suas posses, forças, meios;que consta só de unidades (número);austero;íntegro;recto;incorruptível;

s.m.,
número em que não entram frações ou parte decimal.


Ser inteira
[não é pedir demais]

(Darla)

quinta-feira, fevereiro 26

Olhos ainda pintados dando adeus ao feriado ingrato
cortinas rasgadas que tentam se fechar.

Uma última nota no cavaquinho e o ouvido louco por ouvir um novo som...
vontade de ser piano pra ser tocado com maestria.

plumas e paetês levados com o vento sul
sorrisos disfarçados e cansados
sem porquês.

Salão vazio aqui dentro...
dança solitária aqui dentro...

“solidão também é companhia?”

Talvez...

(Darla)

terça-feira, fevereiro 24

Eleonor

Eleonor era moça de finos traços e olhar tenro.

Nela, ele encontrou boa amiga, nele, ela encontrou bom ouvinte.

Dela, ouviu sobre saudade
Disse-lhe que é sentimento que não se sabe como lidar
“Saudade...o que fazer com ela...não sei...”

Também falou ela sobre aurora boreal e do seu desejo por ser uma.
E ele viu nela todas aquelas cores que verdadeiramente saíam dos seus poros. Ela era realmente uma.

E todos os dias ele se sentava ao seu lado e a olhava, esperando pela nova palavra.

Falou sobre ameixas, sobre algas, mares mortos por sal
Rabiolas, confeitarias e laços de fita
Sobre as estrelas e sobre vulcões.

Até que um dia ele a perguntou sobre o amor.

“Amor?... não sei”.

E continuaram ali por toda tarde, banhados pelo silêncio, observando os pássaros.

(Darla)

 
Eu quero é me deitar neste chão
Deixar os cabelos tornarem raiz
Ser semente pra boa colheita
Do forasteiro que me quiser levar.

(Darla)

domingo, fevereiro 22

Um olhar colorido

 
Sou a notícia
o grito alarmado
o sono repentino

sou cor sobre o desenho
e sobre mim.

(Darla)

Doce sina

 
Sempre se olhava, mas nem sempre se via.

Eu só observava
Observava os olhos fugitivos
Os olhos de ressaca fingindo não se ver.

E minha alma ficava imensamente penosa
pelos olhares indeterminados sobre si mesma.

Então passaram alguns ventos,
mares e tempestades,
Até dias de sol a pino.

E num dia em que observava não mais com expectativas, mas só curiosamente, tive a maior surpresa e alegria que poderia esperar.

Um olhar como nenhum outro
Um lançar de olhos sobre si que a revirava
Um olhar de ondas que renovavam tudo
Um olhar de céu que só tinha estrelas
E de sorriso descobridor
Apaixonado, louco por vida
Um olhar colorido sobre uma vida até então preta-e-branca.

E aquele olhar fez até minha vida de observar parecer mais interessante.
A fez valer à pena.

Vê-la olhar para si daquele modo e perceber que se via
Fez-me pegar a mala e partir a fim de observar outros olhares.

(Darla)

domingo, fevereiro 15

Orkuteando...


As palavras se encaixando com cada foto
E cada foto parecendo um livro
Tanta coisa li nelas

As palavras dele pra ela e dela pra ele...

Acho que era assim que queria viver
Mas sem ilusões...só foi bom sentir isso, ver um pouco daquilo que na verdade queria...

Gostei porque gosto de me ser assim e assim me sou em essência

E tudo bem se não achar tanto...eu achei

(Darla)

sexta-feira, fevereiro 13

Um café

 
Uma palavra e o meu silêncio.
Mais uma ...
e o seu silêncio.

Um gole do café
e o respeito a que lhe devo.

Um suspiro
(dedilhando os lábios)
Outro
(sussurrando um soneto)
Mais um
(imitando a música)

Um olhar e o seu silêncio.
Meu olhar sobre o seu silêncio.
Uma jura silenciosa dentro de mim.

Uma esperança lançada sobre os movimentos das suas mãos
e sobre a leitura pessoal que faço dos seus traços.

E mais um silêncio.
Perdido dentre tantos dos que já me acostumei.

(Darla)

segunda-feira, fevereiro 9


O sorrir da criança no colo daquela mãe fez cócegas em seus lábios
E da dureza das linhas de sua face brotaram sinais de esperança


[Bom saber que havia esperança sob seu olhar tristonho]


(Darla)

domingo, fevereiro 8

Cansaço d'alma


Sentei ali, ali mesmo no banco da praça, o mais afastado mas que dava a visão de todo o mundo.
Algumas folhas aos pés, risos ao longe de crianças, um meio sol sobre mim e o cheiro de pipoca enlaçando-me.

Então sentou-se na ponta oposta do banco e balbuciou
“estou cansado”
Olhei com olhos curiosos, talvez juvenis, de quem quer desvendar o universo.

Um meio sorriso, um suspiro e
“estou farto”

Abaixei a cabeça num sinal de compreensão e até compartilhamento de tal sentimento
Entendendo, olhou para as mãos, sorriu e

“é bom saber que não se está sozinho”

Então sorri
Sorriu

E houve o silêncio que nos abraçou

 
Realmente, existem mesmo “Pessoas” por aí...

(Darla)

sábado, fevereiro 7

Verdades de um Douto


“E todo mundo sabe que gente ruim não usa all star”(*)

Desejo ao meu mundo e ao seu, all star
O preto tradicional, o branco clean, o vermelho e o estampado estilosos, o xadrez...
Pode ser qualquer um.

Desejo que ande por aí sem se sentir acima de ninguém
Mas que não deixe de ver quão valioso é no mundo e que a cor que você traz é única.

Desejo que ande confortável, viva quem você é e seja verdadeiramente você sem se importar com a opinião alheia.

Desejo que faça as pessoas à sua volta se sentirem felizes e em sua tribo
E que sempre haja um sorriso no fim do dia
Um cinema com pipoca
Chocolate e coca-cola.

Que você se deixe molhar de chuva e se seque atrás da geladeira, se estiver com pressa, mas se não, que se seque calmamente enquanto encontra carinho no colo de alguém.

Desejo paixões fulminantes
Gírias, as mais variadas
Gostos discutíveis.

Mas desejo também que se encontre:
Na velha loja de discos
No blues esquecido
Na camisa amarrotada
Na viola.

Pode até ser.

Mas que se encontre no outro que anda por aí onde você talvez nunca pisou
No outro que assobia pela rua tentando te achar
No outro que separou o colo, os dedos, os olhos, a boca, o ser todo, só pra te fazer sorrir
Sempre e sempre

E que use all star, é claro!

(Darla)
(*)Recortes de um Douto
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